O sintoma e a civilização em tempos de pandemia

O sintoma e a civilização em tempos de pandemia é o tema contemporâneo e que será tratado no artigo a seguir. É importante manter-se informado sobre o assunto. Afinal, como podemos enfrentar esse momento? O caso da pandemia do coronavírus nos colocou a necessidade de nos protegermos e as pessoas ao nosso redor.

Desde que as mortes relativas ao contágio do Coronavírus começar a chamar a atenção para seus impactos potencialmente apocalípticos, muitas restrições foram tomadas pelos governos e seus representantes como tentativas de conter ou minimizar os danos da atual pandemia.

Precauções como o isolamento social, o uso de máscaras, a higienização adequada das mãos e a cautela para não ficar encostando no rosto são algumas das diretrizes adotadas nesse sentido para evitar um prejuízo maior e mais generalizado.

Esses cuidados, por mais necessários que se mostrem, colocaram as pessoas em contato com escolhas difíceis para tempos difíceis: acatar ou não acatar as decisões do coletivo, acreditar ou desacreditar os estudos relacionados à imunologia, respeitar ou não respeitar as orientações de presidentes, governadores, prefeitos, cientistas.

A Pandemia no Brasil

Além do mais, no caso específico do Brasil, há uma disputa política por quem irá ser responsabilizado pelas mortes do coronavírus e qual setor conseguirá as medidas mais apropriadas para combater a doença, que se dividiu como a escolha medicamentosa da cloroquina para os apoiadores do presidente e o isolamento social aliado às máscaras e higienização para a oposição.

Isso, é claro, torna muito mais difícil que haja uma frente unida e comunicativa capaz de estabelecer conjuntamente os procedimentos mais eficazes que serão tidos como regra de ouro para a saúde e segurança públicas.

Ao que me parece, essa disputa está ligada, além das óbvias paixões políticas, aos sistemas de defesas sintomáticas a que cada um de nós está sujeito, com suas particularidades.

Reflexão diante da situação

Proponho, então, uma breve reflexão sobre as condições atípicas que estamos vivenciando e as considerações que os estudos em psicanálise podem fazer quanto a isso.
A primeira questão que gostaria de levantar é quanto às tentativas que muitos fazem de justificar por que “furam” a quarentena, ou não usam máscaras, ou não seguem outras das medidas propostas, etc.

Tem sido bastante comum, aliás, que algumas pessoas, ainda que preocupadas com os riscos, ainda assim continuem saindo de casa por razões fúteis, fazendo visitas ou até desestimulando conhecidos a seguir os protocolos tomados em decisões públicas.

Essas atitudes, quando há tentativas de explicar-se para o outro, parecem se colocar como tentativas de racionalização, um tipo de defesa em que o sujeito irá selecionar as justificativas mais convenientes para sua atitude, ainda que essas justificativas não sejam razões boas.

O isolamento e as consequências da Pandemia

Alguém que diz, por exemplo, que precisa sair e dar uma volta porque precisa mais que os outros de ar livre e de espairecer coloca uma razão fútil (e conveniente ao seu argumento) para justificar algo que, na verdade,
não se justifica da melhor maneira.

Da mesma forma, aqueles que alegam “gostar de trabalhar” ou “querer trabalhar” e não ser preguiçosos/picaretas, etc. (como sugerem ser quem cumpre as condições da quarentena) também estão se justificando por meio da
racionalização, colocando seus interesses pessoais acima de qualquer outra questão de importância superior.

Freud e a civilização

Em seu livro “O futuro de uma ilusão” (1927), Freud escreve algo sobre nossa condição frente à civilização, e as exigências que ela nos faz, que é muito pertinente também para o nosso momento.

Ele escreve: “É digno de nota que os seres humanos, embora incapazes de viver no isolamento, sintam como um fardo os sacrifícios que a civilização lhes requer, para tornar possível a vida em comum.”

Como estamos vendo, apesar de não sermos capazes de sair da civilização, de estar fora dela, muitos de nós, ainda assim, se recusam a aceitar os sacrifícios demandados para isso.

A crise sanitária na Pandemia

No caso da pandemia e da crise sanitária que estamos vivendo, essa recusa é muito clara, e é fácil perceber e diferenciar aqueles que estão daqueles que não estão dispostos a aceitar a vida em sociedade nos termos e grau de compromisso que ela requer.
Outra defesa que tem aparecido muito nos discursos atuais quanto ao Coronavírus e suas consequências é a negação, nesse caso muito parecida com a escotomização ou a surdez emocional, que tenta minimizar no discurso o risco real apresentado pela contaminação por esse vírus, risco este que pode ser – e para muitos tem sido – fatal.

A defesa, nesse caso, ocorre por meio de um empobrecimento da verdade, comparando-se, por exemplo, o quadro geral do Coronavírus com o quadro (também importante, mas nem de longe tanto quanto) da gripe.

Perigo do contágio

Para muitos, acredito, essa negação também se dá por vias de uma introjeção (assimilação impensada) da fala e posicionamento de certas figuras públicas, familiares ou amigos, que ao colocar-se céticos quanto à seriedade da pandemia também permitem aos que introjetam seus traços que se coloquem assim.

Nesse sentido, a negação do perigo de contágio também pode ser, ela mesma, contagiosa, levando muitos a se
expor a um alto risco.
Uma outra possibilidade, a que me parece a mais adequada e desejável, é uma aposta na renúncia altruísta, que muitos de nós têm feito.

A esses, que apostam nessa saída “sublimada” (ainda que não configure exatamente, no sentido mais original, uma sublimação), os sacrifícios feitos em prol de um coletivo – o uso de máscaras, a higienização correta e o isolamento social durante a pandemia, principalmente  – não deixam de ser grandes sacrifícios, exigindo uma boa dose de coragem, enfrentamento e privação.

Conclusão

Somos privados do contato direto e frequente com pessoas amadas, privados da liberdade para viver plenamente e privados de uma segurança e certeza sobre o modus operandi que está se reinventando durante esses tempos.

Apesar disso, existem nessa renúncia a solidariedade e a empatia necessárias para combater a pandemia, e o fato de que muitas pessoas têm se disposto a isso nos dá, no mínimo, alguma esperança.

Artigo escrito por Isadora Saraiva Urbano, especialmente para o Portal Só Psico.

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