O que é inconsciente?

Quando estudamos Freud, sempre nos vem a pergunta O que é inconsciente? diante disso, no artigo a seguir iremos explicar.

No início de suas pesquisas sobre a histeria, Sigmund Freud passou a entender que certos distúrbios de comportamento tinham como motivação os reflexos de algum trauma antigo esquecido na mente. Freud ainda não concebia o Inconsciente como um lugar específico na mente humana.

O que é inconsciente?

O Inconsciente era um adjetivo referente à ausência de Consciência, como acontecia quando falava de “experiências inconscientes”, “conteúdos inconscientes”, “sensações inconscientes”. Outras vezes, Freud empregava o termo como advérbio: “a expulsão da representação é processada de modo inconsciente”; ou “sintomas histéricos são derivados de lembranças que agem inconscientemente”.

Isso era o que Freud identificou mais tarde como sendo o “sentido descritivo” do termo “Inconsciente”. A mente humana era capaz de guardar lembranças que, ou podiam ser retomadas com pequeno esforço, ou mantinham-se ocultas sem que a pessoa sequer se desse conta de que existissem. O termo Inconsciente incluía tudo o que não era consciente e o que era temporariamente latente na consciência; e isso descrevia o que se pensava a respeito do mesmo.

Com o decorrer de sua atividade clínica, Freud foi percebendo uma característica intencional oculta no sistema psíquico. Surgiam evidências, em seus pacientes, de que poderia ter havido uma ação no passado, que teria transformado conteúdos de experiências desagradáveis em conteúdos reprimidos.

O que significa o termo inconsciente?

Ao lado do sentido puramente descritivo do termo Inconsciente, construía-se, então, para Freud, a hipótese de um sentido “dinâmico” no âmbito da mente humana, tendo em vista que deliberadamente uma força podia agir no sentido de resguardar a consciência de embaraços constrangedores.

Freud cogitava sobre uma função repressora da mente, e uma instância específica de conteúdo represado, com a função de mantê-lo longe da consciência. Contudo, esse conteúdo não se limitaria a ficar inerte e buscaria de alguma forma se expressar, ainda que de modo inconsciente.

Freud considerava a existência de uma atividade funcional entre dois supostos espaços do sistema psíquico, o consciente e o inconsciente. Uma das primeiras ideias que formou foi a de processos mentais muito poderosos, capazes de afastar da consciência conteúdos indesejados.

Freud passou a diferenciar, então, os dois tipos de inconsciente: o latente e o reprimido. O conteúdo latente, que considerava inconsciente apenas descritivamente, passou a chamar de Pré-consciente.

O que é inconsciente? Propriamente dito ficaria restrito, então, ao conteúdo reprimido segundo uma dinâmica psíquica que Freud começava a identificar. O aparelho psíquico é formado, segundo explicava Freud, por uma extremidade sensorial e uma extremidade motora. Na extremidade sensorial situa-se o sistema que chamou de Perceptivo.

Registros mnêmicos

Este sistema recebe as sensações e as percepções externas, mas não retém o traço permanente delas. No decorrer de sua vida, o ser humano vai aprendendo a significar essas sensações e percepções por meio de representações verbais. Todas as sensações e percepções que podem ser significadas na memória por meio dessas representações verbais são fixadas como registros mnêmicos.

A extremidade motora é a instância atuante durante o estado de vigília, e de onde partem as ordens para as nossas ações voluntárias e conscientes. Nessa instância localiza-se a memória latente, todo um conteúdo de representações arquivadas e que pode ser acessado mediante um pequeno esforço de ativação da memória, por meio dos sistemas mnêmicos.

É a instância que Freud chamou de Pré-consciente que passou a ser reconhecido por Freud como uma instância importantíssima no processo psíquico. Era uma instância com função de crítica, fazendo a separação entre o que seria Consciente e a instância criticada, o Inconsciente. Este não teria acesso à Consciência senão através do sistema Pré-consciente.

Diferença entre consciente e inconsciente

Entre o Consciente e o Inconsciente haveria, então, uma barreira com a função de filtrar o que poderia ou não ser acessado pela Consciência. Durante a noite, em estado de relaxamento, o caminho do Consciente em direção ao Pré-consciente ficaria bastante reduzido, de maneira que o sentido oposto teria como se abrir às excitações dos desejos provenientes do Inconsciente, o que explicaria os sonhos.

Problemas não resolvidos durante o dia, preocupações e acúmulo excessivo de estímulos depositados no Pré-consciente teriam o poder de transportar-se para o sono e sustentar processos de síntese dentro dos sonhos, em combinação com desejos e conteúdos reprimidos.

Ao passar pelo Pré-consciente, o poder de estímulo do Inconsciente é obrigado a submeter-se a modificações, determinadas pela bagagem de representações verbais que a pessoa tenha adquirido ao longo de sua vida. Algo que é, em si próprio, inconsciente, conseguiria tornar-se pré-consciente, valendo-se das memórias mnêmicas e das representações verbais.

O trabalho do analista seria tornar (pré) consciente algo que estava reprimido, fornecendo a esse conteúdo inconsciente vínculos intermediários, por meio de palavras, formando representações verbais de ideias e pensamentos.

Atividade analítica

Com os avanços de sua atividade analítica, Freud foi verificando que seus pacientes manifestavam disposição ao trabalho de análise, até que uma espécie de desconforto aparecia, sem que conseguissem explicar o porquê. A partir de um determinado momento, os pacientes não conseguiam avançar no tratamento.

As suas associações falhavam quando pareciam estar próximas de resgatar o reprimido. Para Freud, entrava em curso um mecanismo de resistência inconsciente. Havia uma energia que partia do inconsciente, que se comportava exatamente como se fosse reprimido, sem ser o conteúdo reprimido, e que exigia um trabalho especial para poder se tornar consciente.

A oposição se dava entre o conteúdo reprimido, que se esforçava para abrir caminho até a atividade motora, e a força repressora, também inconsciente, que atuava para mantê-la sob controle. No processo de análise, as tendências que haviam sido recalcadas ganhavam energia, e a análise defrontava-se com a tarefa de remover as resistências que a parte inconsciente do indivíduo apresentava para poder preservar o reprimido.

O que é inconsciente e os processos da mente

Freud nunca chegou a delimitar partes físicas no cérebro, embora tivesse feito tentativas para isso. Não obstante, sua prioridade sempre foi elucidar o funcionamento e o mecanismo dos processos da mente, de modo que procurava didaticamente obter analogias para ilustrar o aparelho psíquico, ao invés de tentar localizar no cérebro esse funcionamento.

Assim, o emprego de termos como “lugar” e “partes”, tinha sentido apenas virtual para Freud. Como cientista, Freud buscava formas de sintetizar suas descobertas. No decorrer de sua vida, seus estudos levaram a desenvolver três processos de síntese: o descritivo, o funcional e por fim o estrutural.

Primeiramente, O que é inconsciente? foi descrito como um estado não consciente; depois passou a ser identificado com a função repressora e o conteúdo reprimido; e mais tarde o termo Inconsciente foi usado para referir-se a um dos sistemas do aparelho psíquico.

Representação estrutural da mente

Freud caminhava para uma representação estrutural da mente. Para tentar ser mais didático, passou a adotar siglas para se referir a esses sistemas, como Cs, Pcs e Ics. Com o desenvolvimento de suas observações, na sua atividade clínica e nos seus estudos sobre o sonho, Freud foi percebendo que a distinção que fazia entre os dois supostos espaços da mente, o consciente e o inconsciente, não apresentava a nitidez que pretendia.

Havia algo mais específico na mente humana que tornava os processos mentais conscientes ou inconscientes. Freud inspirou-se em Georg Groddeck, médico contemporâneo seu, que na época insistia em uma ideia bastante controversa ainda hoje: aquilo que chamamos de nosso Eu, ou mais especificamente de nosso Ego, comporta-se essencialmente de modo passivo na vida.

Embora lutemos, uns mais, outros menos, contra isso, somos ‘vividos’ por forças desconhecidas e incontroláveis. Freud simpatizava com essa ideia, embora não de um ponto de vista esotérico. Muitas vezes, ele sentiu isso em seus pacientes. Freud admitia encontrar um lugar para essa descoberta na estrutura da Ciência.

Processos mentais

Freud concebeu, então, que cada indivíduo carrega uma organização coerente de processos mentais, representada por uma entidade psíquica que governa o Consciente e identifica-se com o eu do indivíduo. As pessoas tendem a identificar como Eu a parte do Ego que é consciente.

O Ego controlaria as abordagens pessoais em relação ao mundo externo. Seria a instância mental que supervisiona todos os processos conscientes e que vai dormir à noite — embora ainda possa captar estímulos externos e exercer algum tipo de censura sobre os sonhos.

Desse Ego é que partiriam as repressões, por meio das quais procura excluir da mente as tendências que julga incompatíveis. Com a identificação do Ego, Freud retirava do Consciente o papel ativo definidor dos processos psíquicos e este passava a ser puramente um estado mental.

Para Freud, a Consciência não podia ser a causa dos processos mentais, mas sim um efeito deles, e o mesmo se podia dizer do Inconsciente. Com essa nova visão, deixou de derivar as neuroses de um conflito específico entre o consciente e o inconsciente. Passou a atribuir esse processo a uma antítese entre a entidade psíquica do Ego e o conteúdo reprimido que identificou primeiramente como o “recalcado”.

Freud derivou de Groddeck a ideia de um “id psíquico”. Primordialmente o ser humano constitui-se como um Id, uma entidade psíquica, desconhecida e inconsciente. No Id reinaria irrestritamente o princípio do prazer. Sobre essa base repousaria um Ego, desenvolvido a partir de seu núcleo, o sistema Perceptivo.

O Ego seria aquela parte do Id que foi “educada” pela influência direta do mundo externo, por intermédio de tudo o que o sistema Perceptivo pode obter de fora. Além disso, o Ego procuraria aplicar a influência que recebe do mundo externo ao Id e às tendências que estão contidas nele.

Ou seja, o Ego esforça-se para substituir o princípio de prazer irrestrito pelo princípio de realidade. O Ego representaria o que pode ser chamado de razão e senso comum, em contraste com o Id, transbordante de paixões.

Durante a infância, Id e Ego brincam livremente. Com o desenvolvimento das percepções de como o mundo funciona, o que inclui a educação e as sanções, uma nova entidade vai se formando. Freud a identificou como o SuperEgo, ou “ideal do Ego”.

Os conflitos

Os conflitos entre o que é permitido e o que não é, são resolvidos pelo Ego com o recalcamento dos conteúdos incompatíveis. Durante a vida, o Ego esforça-se para oferecer substitutos ao Id, em acordo com o SuperEgo. A partir daí, cada indivíduo preenche esse sistema com uma multiplicidade de variáveis, que se combinam em um equilíbrio tênue entre saúde e doença.

As intenções de liberação do Id são periodicamente postas ao Ego, por meio do sistema Perceptivo, principalmente quando algo de fora estimula os processos inconscientes recalcados. Esse sistema recebe as percepções, que são acompanhadas por rápidos estados de consciência.

Assim que os impulsos e estímulos são classificados, seguem adiante ou são desaprovados. Quando recebem permissão para seguir, significa que o Ego teve sucesso na substituição do evento que realizará a compensação dos impulsos do Id. Se desaprovados, significa que não encontraram uma representação adequada. O funcionamento do sistema se detém e o recalcado permanece em repouso até o próximo evento.

Neuroses

Freud foi percebendo que as neuroses representariam uma substituição inconsciente do Ego, sem a participação consciente do indivíduo, oferecida ao Id como defesa ao sofrimento que se instala pela impossibilidade de aceitação consciente de substitutos. As neuroses utilizam-se de representações remexidas no baú do sistema Pré-consciente, para que possam burlar a guarda do Ego e se manifestarem, ainda que de forma distorcida.

As neuroses assumem uma parte do Ego e se manifestam como distúrbios de personalidade, bem como corporalmente por meio de inflamações e fenômenos patológicos em regiões do corpo associadas a registros de memória inconsciente.

Freud obteve sucesso em inúmeros casos clínicos de neurose, histeria, alucinações e sintomas corporais, utilizando a técnica exaustiva de vasculhar o inconsciente de seus pacientes, mediante a análise das representações verbais e dos sonhos.

Seu modelo estrutural é útil até hoje para entendermos como e por que se manifestam nas pessoas as atitudes impensadas provenientes do Id, as obsessões desmedidas praticadas pelo Ego e o controle absolutista imposto pelo SuperEgo.

O artigo foi elaborado por William Lonzar especialmente para o Portal Só Psico.

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