Histeria e psicanálise sob a ótica de Charcot e Freud

As neurose são perturbações nervosas sem lesão anatômica nem sintomatologia definida. O que deixava desnorteada a medicina e a Anatomia Patológica. No artigo a seguir, veremos mais informações sobre a histeria e psicanálise de acordo com Charcot e Freud.

Introdução – histeria e psicanálise

Freud (1886-1939) foi em seu tempo de vida acadêmica e estudos o que é possível chamar, em nível popular, de “pedra no sapato” para as ciências médicas no que tange as descobertas empíricas da neurologia e da psiquiatria.

Ciência nascida no final do século XIX, a neurologia se colocava, a partir do pensamento de seu criador Jean-Martin Charcot, “como a área que estuda as doenças que afetam o Sistema Nervoso Central e o Sistema Nervoso Periférico” (HIGASHI, 2016).

Não obstante, Charcot fazia um estudo sistematizado do que era compreendido na época e para à época como neuroses, entre essas a histeria.

Entretanto, é significativo explicitar que ao fazer referência a Freud como uma “pedra no sapato” isso não se aplica na sua relação com Charcot, mas com o objeto principal da neurologia: o cérebro do ponto de vista anatômico/fisiológico.

Neurologia

A neurologia, assim como as demais ciências cuja raiz estava alocada na medicina, era procedimental. Como explicado por Canguilhem (2009), a clínica médica se fundamentava na lei do esquadro, ou seja, havia uma métrica para orientação sobre os estados de normalidade e anormalidade.

Quando se tratava de medicina, sua prática partia, quase sempre, de deduções. Isso aponta para certa ignorância no que tange as possibilidades individuais de sofrimento e processamento psíquico.

Apesar disso, Freud queria dar um passo a mais do que dizia a neurologia e a psiquiatria da época, ele queria ir além, alcançar o íntimo não conhecido do homem. Compreender aquilo que ele entendeu como “inconsciente”. Em outras palavras, contrariando as premissas da medicina, Freud desejava compreender e interpretar o indivíduo por ele
mesmo.

Nesse cenário, Charcot – médico Francês – exerceu influência na formação de Freud e de seu pensamento na medida em que apresenta e coloca Freud, seu aluno, em contato com a hipnoterapia. Entretanto, Charcot (1825-1893), embora fizesse uso da técnica de hipnose em suas ações terapêuticas em pacientes que sofriam de males da cabeça, tinha uma visão fisiológica das ações do cérebro sobre o corpo.

O médico relacionava sintoma e causa de modo fisiológico e acreditava que inúmeras “doenças” nervosas estabeleciam afinidade com o modo como a pessoa/sujeito interagia socialmente.

Como Charcot classifica a histeria?

Entre suas observações clínica, Charcot se dedica a causa da histeria e a classifica como uma doença estritamente feminina. Segundo Moura (2009), Charcot consegue verificar na histeria uma sintomatologia definida e a classifica no campo das perturbações fisiológicas do sistema nervoso, é a partir daí que ele começa a utilizar a hipnose como forma de intervenção.

Foi em função do diagnóstico da histeria e psicanálise da aplicabilidade da hipnose que Freud nutriu interesse pelos relatos de Charcot. Sendo ele, um de seus alunos admiradores. No entanto, também foi à hipnose que provocou certa ruptura entre Freud e Charcot.

Freud, ao observar que a intenção de seu mestre era chamar a atenção para certa “espetacularização” da pessoa doente, na medida em que fazia uso das técnicas de hipnose em suas apresentações públicas, repensa a eficiência da prática para possível cura das neuroses.

Como relata Costa e Kupfer (2016, p.73), Charcot não utilizava a hipnose para o tratamento, de fato, da histeria, apenas para suas grandes demonstrações públicas de apresentação de doentes.

Freud (1886-1939), em meio a questionamentos profundos e observações sobre o comportamento neurótico, aos poucos vai delineando outras formas de intervenção sobre as patologias.

Entre as neuroses, a histeria, assim como para o seu professor Charcot, ganha espaço e importância em seus estudos. Por meio de suas convicções terapêuticas se afasta da hipnose porque vê nela certa não eficácia em sua aplicabilidade quando se trata de neuroses e histeria.

Método de associação livre

Propondo o método da associação livre, Freud avança nas possibilidades de encontrar o que almejava: o íntimo do problema das neuroses. Segundo Moura (2009) na associação livre o paciente é orientado a dizer o que lhe vier à cabeça, deixando de dar qualquer orientação consciente a seus pensamentos.

Foi por meio da técnica da associação livre, como método de escuta, que Freud verifica a significação da escuta para avanços de “cura” em neuroses variadas. Fochesatto (2011), explica que o método proposto pela psicanálise tem sua origem na escuta do sujeito que sofre.

Nesse sentido, é possível compreender que para Freud a fala, sua externalização, sem que haja sobre ela qualquer tipo de julgamento moral, altera os estados mentais do paciente. Em função do que foi exposto à psicanálise, nasce com a proposição de escutar.

Acredita que a fala permite, aos poucos, que a pessoa que a externa possa modificar a interpretação de alguns traumas passados. A fala, para Freud, permite a consciência de si. Para Freud e seus seguidores, quando não
se fala, o afeto recalcado se torna um sintoma.

Portanto, não se trata aqui de buscar a origem da psicanálise em um ou outro teórico, mas de compreender que o alicerce assim como a gênese psicanalítica está da prática da escuta.

Fontes: COSTA, Beethoven Hortencio Rodrigues da; KUPFER, Maria Cristina; Machado. Freud e sua relação com o saber. In: Revista de Arquivos Brasileiros de Psicologia. Rio de Janeiro, RJ: Pepsico, 016. P.71-83

FOCHESATTO, Waleska Pessato Farenzena. A cura pela fala. In: Jornada anual do CPRS. Revista – Estudos de Psicanálise-Número 36. Dezembro de 2011. Belo Horizonte, MG: CPRS, 2011 p.165-172

HIGASHI, Rafael. O que é a neurologia e a sua evolução na história da medicina? In: Lib.Med.BR: artigos científicos. São Paulo, SP: Lib.Med.BR, 2016. Disponível em: encurtador.com.br/hzAU9 Acesso em: 19 de maio de 2020 as 11h20

MOURA, Joviane. A Hipnose e a Associação Charcot-Freud. In: Psicologado. 2009. Disponível em: encurtador.com.br/oQSW3 Acesso em: 19 de maio de 2020 as 12h06

O texto Histeria e psicanálise sob a ótica de Charcot e Freud foi elaborado por Eduardo Garcia.  Aproveite também e veja mais artigos relacionados ao tema.

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