Fetichismo na psicanálise de Freud

O texto a seguir põe em evidência uma visão ao mesmo tempo histórica e conceitual do Fetichismo na psicanálise de Freud, não só em sua relação mais particular com a perversão mas, também, no que se refere aos destinos da sexualidade. Boa leitura!

O que é Fetichismo?

O conceito de fetichismo, socialmente falando, está associado a fantasias sexuais, situações erotizadas de um desejo. Dentro de uma perspectiva histórica e etiológica, o Fetiche origina-se de Fétiche, termo derivado do francês.

Na tradução da língua portuguesa o significado de feitiço, traz em sua interpretação o suposto enfeitiçar (estar magicamente atraído por algo ou alguém, sem razões explicáveis à consciência).

O termo foi criado em 1750 e tornou-se conhecido na Europa através do francês Charles de Brosses em 1757, retornando em 1887 pelo psicólogo francês Alfred Bibet (1857-1911) e mais tarde pelos fundadores da
sexologia.

No que diz respeito ao Fetichismo, os estudos da sexualidade e o percurso dela traçaram uma definição de Fetichismo como uma forma de comportamento da vida sexual normal, que visa características de privilegiar uma parte do corpo ou objetos relacionados a mesma.

O Fetichismo na sexologia

A sexologia destaca uma compreensão do Fetichismo como um Fetichismo patológico, caracterizado como uma perversão sexual, que visa à excitação e obtenção de prazer de forma única e exclusiva por meio de pés, boca, seios, cabelos, etc., o que caracteriza as preferências quanto às partes do corpo humano, sapatos, chapéus, tecidos, dentre
outros como preferência quanto ao objeto.

Alguns autores falam que as psicologias como um todo, estabelecem esse substituto como uma relação de prazer, desejo ou satisfação de cunho erótico com qualquer objeto externo que proporcione o prazer almejado para investimentos libidinosos ao sujeito.

Fetichismo na Psicanálise

Baseado na Psicanálise Freudiana e nas obras de Sigmund Freud, podemos falar sobre um fetichismo normal e patológico, propondo uma afirmação onde o mesmo irá ocorrer perante a dissolução do Complexo de Édipo frente à castração, e possivelmente estabelecerá um objeto de desejo ligado a infância em algum momento de sua vida, proporcionando a constituição do fetiche como defesa, ao qual se apresenta como uma forma de rejeitar o medo de ser castrado e admitir a falta do pênis feminino.

Em 1905, Sigmund Freud traz uma nova proposta ao estudo do fetichismo, contrapondo alguns pontos além do que a sexologia propunha, atualizando o conceito para o olhar da psicanálise da época, onde o mesmo discorre dessa premissa para compor a visão de perversão sexual, considerando assim como a sexologia, um fetichismo de ordem
patológica, ao qual a ideia de escolha de um objeto ou parte seria a única escolha do sujeito como substituto de uma pessoa.

Logo, entra em desacordo com os estudos da sexologia, introduzindo uma definição de uma escolha perversa, caracterizada por um substituto ao falo feminino, cuja falta do mesmo é recusada pela renegação (Roudinesco;
Plon, 1998), atribuindo o fetiche a uma representação fálica, ao qual, propunha-se constituir como uma defesa a castração mediante a descoberta das diferenças anatômicas.

As amplitudes teóricas do Fetichismo

Ao decorrer da trajetória psicanalítica, o conceito de fetichismo foi proporcionando amplitudes teóricas e novas visões clínicas. Em 1927, aparece  a publicação do Fetichismo, no qual Freud, complementando um artigo de 1924 (Neurose e psicose)  evidencia uma recusa e que, no original alemão,  Freud fala que o fetichista nega ser verdadeiro
aquilo que o angustia e que, bem no fundo, ele sabe que é verdade.

Baseados em estudos realizados na época de Brosses e Freud, definiram a natureza do fetiche como exacerbar determinadas trações físicos ou espirituais de um objeto sexual, ou tomar como objeto sexual seres inanimados.

Para a Psicanálise, o fetiche vai além da escolha do objeto em si, onde é agregado uma determinada importância e significado ao que o sujeito atribui a este objeto.

O que Freud diz sobre Fetiche

Será assim a representação significativa que o sujeito possui de forma inconsciente do objeto, a real incorporação da satisfação erótica idealizada. Segundo Freud o significado do fetiche não é conhecido por outras pessoas, de modo que
não é retirado do fetichista, é algo de significação peculiar do sujeito fetichista, ao qual possa recorrer para obtenção de prazer facilmente.

Freud (1927) destaca a facilidade do sujeito em recorrer a este objeto erotizado e como ele é facilmente adquirido, propondo que diferente dos outros homens, o fetichista patológico, não se frustra mediante os esforços para obtenção de prazer, pois, seu objeto de desejo é facilmente obtido, sem se ater a dificuldades, pois, há no fetiche o objetivo de evitar a angústia, a castração e a frustração, logo este objeto particular ao fetichista, se apresenta como elemento
de fácil acesso.

A constituição do Fetiche

Levando a uma perspectiva sobre o que levaria a constituição do fetiche, a escolha do objeto e sua erotização, a Psicanálise propõe que uma das determinações encontradas na constituição de um fetiche será o complexo de castração.

Isso possui em sua amplitude uma grande importância para o reconhecimento das diferenças sexuais do sujeito com o outro, onde o complexo de castração se estabelece, de conformidade com um sentimento inconsciente de ameaça, experimentado pela criança quando ela constata a diferença anatômica entre os sexos, que na tentativa de fuga desta castração.

O sujeito inconscientemente se defende sob o fetiche, para não ser castrado, dificilmente encarar a realidade desse horror sentido em sua realidade psíquica.

Complexo de castração

Em relação ao complexo de castração e ao objeto do fetiche, no artigo escrito em 1927, Freud afirma que o fetiche é um substituto do pênis da mulher (da mãe em particular) no qual o menino outrora acreditou e cuja crença não quer abrir mão.

Segundo Freud, o objeto do fetiche não é um substituto para qualquer pênis, e sim um pênis específico e muito especial, que foi extremamente importante na primeira infância, mas posteriormente perdido na tentativa de continuar reconhecendo sua mãe como fálica.

Na infância, antes do complexo de castração, a criança se recusa a acreditar na falta do pênis nas mulheres, acreditando em sua universalidade, pois ao ver em si próprio o órgão genital masculino, logo projeta que todos são iguais e possuem tal órgão, assim não discriminando o órgão genital entre homens e mulheres.

 

Esse texto sobre Fetichismo na psicanálise de Freud foi criado por Maria da Silva.

Aproveite e veja mais sobre os assuntos e não perca os próximos textos que serão postados aqui no Blog.

Deixe sua opinião abaixo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *