Desafios atuais da Psicanálise

Os desafios atuais da psicanálise passam por diversos quesitos, dentre eles a experiência humana, as dores de cada um e, claro, o próprio profissional.

Neste artigo, retrataremos um pouco dos pontos principais desses desafios atuais da teoria psicanalítica, na sociedade que hoje vivemos, bem como, a aplicação desses desafios na vida real.

Os desafios atuais para uma sociedade cheia de conflitos

Nas condições da vida atual, em que as urgências dão a tônica do cotidiano das pessoas, o tempo de diálogo, de conversa, de escuta, de olhar o rosto do outro é um tempo exíguo, quase inexistente. Agrega-se a isto a carência de relações mais profundas, como o entendimento das emoções dos sujeitos, nos seus embates com as tensões advindas da realidade externa.

Tais condições desafiam a Psicanálise, hoje, pela abrangência do mundo vivido pelo sujeito, que precisa 03falar e ser escutado. Os desafios atuais da Psicanálise vão além: não basta a teoria que permite o entendimento da vida psíquica, com todas as categorizações que identificam sintomas e comportamentos problemáticos.

É necessária uma compreensão mais abrangente, que além dos conflitos pessoais, consiga fazer a leitura dos conflitos sociais e culturais, nos quais as pessoas estão mergulhadas, sofrendo as limitações de seu cotidiano.

É diante dessa realidade que se impõe uma visão holística, que permita tratar a totalidade de uma mente cujas razões e emoções não se digladiem, mas componham uma integridade expressiva capaz de somar para uma visão de mundo coerente e confortável.

A escuta e a fala como desafios atuais

Mais um ponto que para acrescentar nos desafios atuais. Nesse aspecto, destaco como importante a leitura que fiz do artigo “Cura pela fala”, de Waleska Fochesatto. O fato de trazer a escuta e a fala, como elementos significativos, que constroem o discurso do sujeito que fala, facilita a compreensão das interações sociais e culturais, nas quais o sujeito está envolvido, indo um pouco além dos determinismos de saúde e doença. A conversa, a escuta, o poder falar e ser ouvido tem um grande significado, na vida das pessoas, em geral.

A meu ver, ultrapassa o território da doença psíquica, na medida em que todos temos necessidade de sermos ouvidos e de falarmos dos nossos sentimentos, numa relação de confiança ou de amizade.

Na dinâmica da Psicanálise, o conjunto de falas possibilita tratar as lembranças reprimidas e trazer os afetos à consciência para serem tratados, analisados, entendidos. Na área da Filosofia, em que trabalho e fiz toda minha formação, há um outro paradigma, que aponta para o sujeito do conhecimento e da ação. Precisamos nos entender e entender o mundo que habitamos e que construímos, buscar as teias dos nossos laços sociais.

Por isso, o famoso “Conhece-te a ti mesmo”, dito a Sócrates pelo oráculo de Delfos, dá início à compreensão da subjetividade, pois ao me conhecer consigo perceber o outro, que não sou eu, mas que traz em si condições comuns da existência, que podem ser partilhadas e traduzidas, nas suas peculiaridades.

Vida Psíquica, cultural e social nos desafios atuais

Nada melhor que as palavras, que tecem uma rede de significados, para que se conheça um pouco do sujeito que as pronuncia. E aqui, novamente, pode ser analisada não só a vida psíquica, mas a vida social e cultural, dimensões da subjetividade, tanto ética, quanto política.

No que se refere à vida psíquica, as lembranças e vivências podem agitar ou aquietar a consciência, de modo a produzir falas que escondam ou revelem sentimentos, de toda ordem. No que diz respeito à vida social e cultural, o saber de si mesmo no mundo, permite a realização de projetos coletivos e a integração com os outros.

Ou seja: precisamos nos entender situados, inteligíveis, atentos ao mundo da natureza e da cultura e queremos atuar nesses mundos. Até aqui não há nenhum critério de verdade e de moralidade, há, inicialmente, uma necessidade de sobrevivência e de adaptação dos humanos ao meio. Esta é a inserção concreta na vida.

Experiências pessoais

Experiências pessoais de ordem social ou cultural, como discriminações, preconceitos, intolerâncias, de toda ordem, podem produzir no imaginário do sujeito uma síndrome de rejeição, de isolamento, até mesmo de recusa em falar, por não esperar ser ouvido.

Aqui ficamos na fronteira das patologias sociais, que incidem, fortemente, sobre as patologias pessoais. Essa multiplicidade de situações está a desafiar a Psicanálise, neste tempo de redes sociais.

São muitas as perdas que ocorrem nessas contingências vividas pelos sujeitos. E essas perdas produzem medos, os quais têm outros desdobramentos na vida psíquica. Trago aqui a assertiva da autora Waleska Fochesatto: “A Psicanálise se coloca como uma oportunidade das pessoas entrarem em contato com seus medos internos”.

Ressignificar

Se essa oportunidade é importante para ressignificar as perdas, entendo que seria plausível o entendimento dessas perdas, no sentido de produzir alívios e robustecer a autoestima tão necessária para a emancipação dos sujeitos.

Retirá-los da condição de subalternidade em relação a seus problemas e construir uma razão autônoma, viabilizaria a apropriação que a pessoa pode construir consigo mesma e tornar-se feliz.

Fazer as pessoas felizes, reforçando a experiência da escuta e da acolhida, torna-se imprescindível nesta etapa da civilização em que as pessoas falam, mas não são escutadas. Constroem-se medos diversos, que podem ser desde o estranhamento de si mesmo até o medo de tudo o que é exterior. É um outro tipo de desafio posto para a Psicanálise enfrentar.

Artigo produzido por Cecilia Pires, especialmente para o blog Só Psico.

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