Aparelho psíquico Freud: um recorte sobre a figura do ID

Cada vez mais é reconhecido que o psiquismo é um forte elemento contribuinte para o processo de adoecimento humano. Dessa forma, ele pode contribuir deflagrando um processo de adoecimento físico,  mas também pode interferir para um bom prognóstico de uma afecção. No artigo a seguir iremos tratar do tema Aparelho psíquico Freud: um recorte sobre a figura do ID. Boa leitura!

Introdução do Aparelho Psíquico Freud

Ao introduzir a teoria estrutural do aparelho psíquico, Freud relaciona três instâncias psíquicas, quais sejam: Id, ego e superego. Essas instâncias possuem funções específicas e interagem entre si, influenciando uma à outra reciprocamente.

Em linhas gerais, o id corresponderia à instância mais primitiva e profunda, relacionada aos instintos; o superego, por outro lado, seria responsável pela regulação moral e interiorização de exigências sociais e culturais; o ego, por fim, seria a instância responsável pelo equilíbrio entre a satisfação do id e a censura proveniente do superego.

O id é definido por Freud como o reservatório inicial da energia psíquica; sendo o polo pulsional da personalidade, é predominantemente instintivo (contempla tudo aquilo que é inato, de carga biológica e hereditária) ao mesmo tempo em que contempla as pulsões inconscientes que são adquiridas ao longo da vida.

As pulsões inconscientes

É regido pelo princípio do prazer, buscando sempre a satisfação imediata e sendo, portanto, regido por processos primários.

De fato, as características do id se confundem com aquelas remetidas ao “inconsciente” mencionado na teoria topográfica, onde não existe o princípio da não contradição, nem tempo, nem “palavras” (a linguagem do inconsciente é não verbal, funciona por outros mecanismos, como condensação e deslocamento).

Contudo, há que se destacar uma diferença entre os dois conceitos: enquanto a instância do inconsciente, relacionada na primeira tópica de Freud, coincide com os conteúdos “recalcados” pelo indivíduo ao longo da vida, mais as pulsões instintivas que o indivíduo traz ao nascer (cargas biológicas), o id corresponderia a apenas um recorte
desse todo.

Isto porque parte do conteúdo inconsciente reside nas outras instâncias, ego e superego. Vale destacar que o id é composto por dois pólos pulsionais, o sexual (eros) e o agressivo (thanatos), de onde se originam os instintos.

Enquanto o pólo sexual se relaciona com o prazer sexual, tendo como derivados o afeto, o prazer sexual, o desejo de reprodução, o pólo agressivo se relaciona com a ambição, a competitividade, o desejo de vencer.

A manifestação das pulsões sexuais

A compreensão do funcionamento do id é importante para a elucidação da dinâmica psicossexual, visto que estes conceitos estão intimamente ligados pelo conceito de libido, que representa a manifestação psíquica das pulsões sexuais.

Nesse sentido, vale destacar como essa instância se comporta em cada um dos mecanismos de organização psíquica – neuroses, psicoses e perversões, e como se dá a interação com as demais instâncias (ego e superego).

No que diz respeito às neuroses, ocorre basicamente um conflito entre o ego e a libido (aqui assumida pela figura pulsional do id): enquanto o id demanda a satisfação imediata do prazer libidinal a todo custo, o ego realiza, através de mecanismos de defesa, o compromisso entre essas pulsões e a realidade, visando uma “satisfação” mais duradoura e
em acordo com os padrões morais e sociais.

Aparelho Psíquico Freud e a Submissão

Há, neste caso, uma “submissão” do id ao ego, ainda que esta ocorra à custa de certo nível de desprazer; contudo, haverão implicações sintomáticas no indivíduo, como alterações comportamentais, desenvolvimento de fobias, conversões orgânicas, etc.

Por outro lado, com relação às psicoses, a situação se inverte: apesar do id não estar numa posição central do conflito psíquico, age como “usurpador”, aproveitando-se deste para assumir o controle.

Em contrapartida, ao que ocorre nos neuróticos, não haverá uma repressão do conteúdo para atender à realidade; haverá, entretanto, uma sucessão de tentativas que buscam restaurar a ligação com o objeto de desejo.

ID e o nível de consciência

Desta maneira, o id cria uma nova realidade, a qual o sujeito toma como plenamente real, o que se torna mais fácil porque esse processo de criação não passa pelo nível consciente.

Observando o papel desempenhado pelo id nas neuroses e psicoses, é possível perceber que, enquanto na primeira a distorção na realidade é apenas parcial, na segunda é total; da mesma maneira, é possível notar que, na psicose, não há o desenvolvimento de mecanismos de defesas elaborados, devido ao próprio mecanismo de “fabricação” desta.

De maneira geral, os mecanismos de dissociação, forclusão e recusa ocorrem de maneira mais profunda nas psicoses.
Por fim, no que diz respeito às perversões, o que ocorre é a realização (de fato) do desejo sexual do perverso sem sentimento de culpa; por isso, a literatura costuma relacionar esse tipo de organização psíquica como o “negativo das neuroses”.

Estão ligadas a defesas relacionadas com a angústia de castração, as quais encontram refúgio numa substituição, por assim dizer, do objeto de desejo inicial, sendo este denominado fetiche.

Conclusão

Portanto, a diferença entre o papel desempenhado pelo id nas neuroses e nas perversões se diferencia pela amplitude da influência egóica/superegóica: enquanto no primeiro caso, há uma repressão visando atender às demandas sociais e morais, no segundo há um predomínio da carga pulsional.

Assim, é possível perceber como a relação do id com as demais instâncias psíquicas é capaz de delinear a psique do sujeito, bem como definir a sua personalidade e como será a sua relação com o mundo exterior.

 

Esse texto sobre Aparelho psíquico Freud: um recorte sobre a figura do ID foi criado por Lanna Normando.

Aproveite e veja os nossos outros textos sobre assuntos relacionados.

Deixe abaixo sua opinião!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *